PÉRFIDA (THE LITTLE FOXES) E UMA VILÃ FEMINISTA

Lillian Hellman foi uma das dramaturgas mais famosas e respeitadas das décadas de 30 e 40, escrevendo algumas peças que virariam filmes posteriormente como "The Childens Hour" (Infâmia) e "What on the Rine" (Horas de Tormenta). Mas foi com "The Little Foxes" (Pérfida), que Hellman alcançou o grande sucesso, tanto na Broadway, quanto na adaptação cinematográfica. 
A peça foi escrita e representada em 1939. Na peça, existem elementos autobiográficos de Hellman, que se baseou em alguns familiares para compor os personagens. A estreia da peça ocorreu em 15 de fevereiro de 1939 e antes de entrar em turnê pelos Estados Unidos, a peça já contava com mais de 400 apresentações. Na versão teatral, Regina Giddens foi interpretada por Tallulah Bankhead em uma das suas mais famosas performances teatrais. Tallulah chegou a ser premiada pela revista Variety, como a atriz do ano no âmbito teatral, pelo seu desempenho como Regina Giddens. Com o sucesso da peça, começou a ser discutida a possibilidade de uma adaptação cinematográfica.
Em 1941, Samuel Goldwyn adquiriu os direitos da peça, além de contratar a própria Hellman para desenvolver o roteiro da versão cinematográfica. Arthur Kober (ex-marido de Hellman), Dorothy Parker (amiga de Hellman e quem forneceu o título da peça teatral) e Alan Campbell, marido de Dorothy, também trabalharam na adaptação do roteiro. Samuel contratou também William Wyler para dirigir o projeto. Houve diversas especulações sobre quem iria interpretar Regina, Tallulah havia sido descartada, devido ao fracasso de dois filmes seguidos, estrelados por ela. Samuel e William não estavam dispostos a correr o risco de fracassar com a versão cinematográfica, mesmo Tallulah sendo a escolha ideal.
William que já havia dirigido Bette Davis em "Jezebel" e "A Carta" (The Letter) (e também havia tido um romance com ela anteriormente), a sugeriu para o papel de Regina. Bette Davis porém, não se sentia confiante em aceitar o papel por dois fatores: primeiro pelo seu contrato com a Warner e segundo pelas comparações com o desempenho de Tallulah Bankhead. Quando Bette finalmente foi convencida a aceitar o papel, Jack Warner não estava disposto a emprestá-la para a RKO. Após diversas negociações, Bette finalmente foi emprestada. Bette recebeu cerca de 3 mil dólares por semana, enquanto Jack Warner recebeu 385 mil dólares pelo empréstimo de sua maior estrela. Ao descobrir isso, Bette exigiu receber uma parte desse valor e o conseguiu.
Como das duas outras vezes, Bette e William entraram em constantes conflitos. O primeiro conflito se deu sobre a aparência da personagem. Bette queria uma caracterização de uma mulher mais velha, em torno dos 45 anos, enquanto Wyler queria uma mulher mais feminina e atraente, o mesmo tipo que Tallulah interpretava na peça. Após diversos embates, Bette continuou firme em sua decisão e não cedeu às exigências de William e compôs Regina da forma que achava correta.
Após outras tensões, Bette chegou a sair do projeto, mas acabou retornando quando soube que haviam rumores que Katharine Hepburn estava sendo sondada para substituí-la. Essa seria a última vez em que Bette e William trabalhariam juntos. Bette chegou a declarar que William havia sido o diretor com quem ela mais gostou de trabalhar, mas que durante as gravações do filme, estava claro que ele estava disposto a transformar seu desempenho em algo que no fim não lhe agradaria. Bette chegou a declarar que cada dia de gravação era uma batalha. 
O elenco do filme contava com  Charles Dingle, Carl Benton Reid , Dan Duryea e Patricia Collinge, que também fizeram parte da versão teatral, interpretando Benjamin, Oscar, Leo e Birdie Hubbard, os dois irmãos, o sobrinho e a cunhada de Regina respectivamente. Para o papel de Horace, marido de Regina, foi escolhido o ator Herbert Marshall e para Alexandra, filha de Regina foi escolhida Teresa Wright.
O filme se passa no início do século XX, em uma época bastante machista, onde apenas os filhos homens eram considerados os herdeiros do patrimônio da família. Enquanto seus irmãos formaram duas fortunas, Regina teve que se casar com Horace, para garantir sua independência dos irmãos. O irmão de Regina, Oscar, se casou com Birdie apenas para poder controlar as plantações de algodão da família de sua esposa. Oscar junto com seu irmão Benjamin (que não se casou) se unem para construir uma fábrica de algodão. Eles precisam de um determinado valor e é então que Regina entra  no negócio.
A princípio, Oscar e Benjamin tramam o casamento de Leo e Alexandra, para conseguirem o dinheiro, porém Regina intervém, pois sabe que o casamento seria a ruína de Alexandra, a quem Regina sempre ambicionou um grande futuro. Regina então se propõe a arrumar a quantia faltante, desde que ela também tenha poder de decisão no negócio. A princípio os dois irmãos não se sentem seguros em confiar na irmã, porém acabam sem muitas opções e aceitam a ajuda de Regina, porém Regina precisa convencer seu marido Horace de que o negócio será vantajoso para todos e para isso Regina estará disposta a tudo, até mesmo a trapacear quem for preciso.
Mesmo sendo uma vilã nata, Regina Giddens tem características feministas: é uma mulher forte, que mesmo rodeada de homens abusadores, machistas e opressores (incluindo até mesmo o seu marido), consegue se impor e chega a ser mais baixa que todos eles.  Mesmo por vezes sendo diminuída por ser uma mulher, Regina tem na maioria das vezes o respeito de seus irmãos. Ela é ciente de que por ser uma mulher, suas chances são bastante limitadas, tanto que para fechar o negócio, ela precisa da autorização de seu marido que mesmo em uma cadeira de rodas e com uma doença cardíaca de certa forma terminal, mantêm a palavra final sobre tudo o que é relacionado a negócios.
Horace, mesmo sabendo que está prestes a morrer, não abre mão do seu dinheiro em favor das ambições da mulher e chega até a ser roubado pelos cunhados e sobrinho, mas para punir Regina, chega a ameaçar a fazer uma declaração de que o dinheiro fora emprestado e não roubado. Regina acaba tendo a sorte a seu favor e consegue virar o jogo, porém como era de se esperar no final ela acaba tendo uma punição.
Outro ponto interessante são as diferenças entre Regina e Birdie sua cunhada: enquanto Birdie é uma mulher que de certa forma era o tipo idealizado pelos homens tanto da época retratada da peça, quanto da realização do filme, sendo por vezes submissa, sofrendo humilhações e devido a desgostos se entrega ao alcoolismo, Regina era o tipo de mulher que qualquer homem machista odiaria: uma mulher forte, destemida, dissimulada e disposta a enfrentar quem fosse para conseguir o que quer. Mesmo sendo desvalorizada por ser uma mulher, Regina não se deixou levar e lutou pelas suas ambições, mesmo que da forma errada.
Mesmo com diversas comparações entre atuações e estilos de Tallulah Bankhead e Bette Davis, o filme foi um sucesso, rendendo 8 indicações ao Oscar, entre elas a de melhor atriz para Bette e melhor diretor para William, além de melhor roteiro adaptado para Lillian Hellman. "The Little Foxes" chegou a ter várias adaptações o rádio e contou com Bette e Tallulah reprisando o papel de Regina, em ocasiões diferentes.

"Pérfida" foi lançado pela Classicline. Clique na capa, para maiores informações ou para comprar:


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PÉRFIDA (THE LITTLE FOXES) E UMA VILÃ FEMINISTA PÉRFIDA (THE LITTLE FOXES) E UMA VILÃ FEMINISTA Reviewed by Rodrigo Veninno on 20:46 Rating: 5

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