HEDY LAMARR - ALÉM DA BELEZA

Hedy Lamarr foi muito mais que um rosto bonito: era uma mulher inteligente, corajosa e bem à frente de seu tempo, porém na maioria das vezes não era levada a sério e era sempre reconhecida por ser uma mulher bonita. Sua inteligência era sempre posta à prova. Em Hollywood, não era permitido ser bonita e inteligente. Ou era uma coisa ou outra. E Hollywood decidiu investir na beleza de Lamarr, porém ela conseguiria desmistificar esse rótulo criando uma importante invenção que está presente até hoje em nossos dias. Foi sabotada de diversas formas, mas próximo ao fim de sua vida, conseguiu a justiça e o reconhecimento que lhe deviam, assim como rompeu a imagem que fora criada em torno de sua persona. Hoje conhecemos Hedy Lamarr, além de sua beleza e podemos celebrar a atriz, a inventora e a mulher inteligente que ela sempre foi, mas que de certa forma foi ofuscada por rótulos machistas por muitos anos.
Seu nome de batismo era Hedwig Eva Maria Kiesler. Nascida em 9 de novembro de 1914, em Viena, na Áustria, teve uma vida bastante confortável e sempre teve contato com arte. Seus pais eram judeus. Sua mãe era uma pianista e seu pai um diretor bancário. Após se interessar por atuação, Lamarr fez diversas peças e filmes que lhe trouxeram certa notoriedade, mas nenhum desses filmes lhe trariam fama como o polêmico "Êxtase" (Ekstase) de 1933. O filme causou polêmica ao exibir Lamarr nua e em especial uma famosa cena onde sua personagem atinge o orgasmo. Lamarr seria a primeira mulher a fazer uma cena de orgasmo no cinema. O filme recebeu diversas críticas: na Europa recebeu o status de filme artístico, nos Estados Unidos, foi considerado obsceno, sendo banido dos cinemas, assim como na Alemanha.
Após a realização do filme, Lamarr acabou se casando com Friedrich Mandl, um de seus admiradores. O que Lamarr não poderia imaginar é que seu marido era um homem ciumento e possessivo, que sempre desconfiava que sua mulher estaria lhe traindo. Lamarr passou a viver como uma prisioneira do marido, sendo sempre vigiada pelos empregados. Mesmo presa dentro de casa, as suspeitas de seu marido não cessaram. Mandl chegou a comprar diversas cópias do filme "Êxtase" e destruí-las, para que ninguém pudesse ver o desempenho de sua então mulher.
Além do ciúme excessivo, outro fator que fez com que Lamarr passasse a evitar o marido, era a ligação dele com figuras contraditórias como Benito Mussolini e mais tarde com Adolf Hitler. Mandl era fabricante de munições e era considerado o terceiro homem mais rico da Áustria. Mandl também se opunha a decisão da esposa em continuar atuando. Cansada das tiranias do marido, Lamarr bolou um plano de fuga: dopou uma empregada que sempre lhe vigiava e fugiu vestida de empregada e levou consigo algumas joias.
Após conseguir fugir do marido, chegou em Londres, onde acabou conhecendo Louis B. Mayer, que na época estava em busca de novos nomes para o seu estúdio, a MGM. O plano de Mayer era contratar estrangeiros e fazê-los trabalhem recebendo pouco dinheiro. Mayer ficou enfeitiçado pela beleza de Lamarr e lhe ofereceu uma mixaria para tê-la em seu estúdio. Lamarr recusou a oferta. Após ver Lamarr entrar em uma sala e todos se virarem para vê-la, Mayer decidiu então pagar mais por ela. Foi a partir desse momento que o mito Hedy Lamarr nasceu. Seu sobrenome foi pego da trágica atriz Barbara La Marr, enquanto Hedy era uma abreviação de seu nome de batismo, Hedwig.
Mayer começou a promover a sua nova contratada e a rotulou de "a mulher mais bonita do mundo". A intenção do tirano era transformá-la numa nova "Garbo". Mayer sempre tinha a obsessão de transformar toda nova atriz em uma nova "Garbo". Óbvio que ele jamais conseguiu isso. Ironicamente, o primeiro filme de Lamarr em Hollywood, não foi na MGM. Ela foi emprestada para um estúdio menor, por insistência de Charles Boyer, que havia conhecido Lamarr e se encantado com ela, a ponto de sugerir uma negociação com a MGM, para emprestá-la. Com Boyer, Lamarr fez "Argélia" (Argel) em 1938 e o filme foi um sucesso.
Após "Argélia", Lamarr fez filmes medianos, onde interpretava sempre uma mulher-bonita-exótica e esses filmes foram fracassos. Com medo de ser considerada um "veneno de bilheteria", ela pediu para Mayer, um papel mesmo que pequeno em "Fruto Proibido" (Boom Town) em 1940. Mesmo vindo atrás de nomes como Clark Gable, Spencer Tracy e Claudette Colbert, Lamarr conseguiu chamar a atenção e o filme foi um sucesso. No ano seguinte dividiu os créditos de "A Vida é um Teatro" (Ziegfeld Girl) com Judy Garland e Lana Turner, novamente em um papel que mais ressaltava a sua beleza, do que o talento. Seu contrato com a MGM terminou em 1945 e não houve interesse em uma renovação.
Após deixar a MGM, Lamarr decidiu produzir seus próprios filmes. Ao todo produziu dois: "Flor do Mal" (The Strange Woman) de 1946 e "Mulher Caluniada" (Dishonored Lady) de 1947. Ambos os filmes sofreram críticas mistas, porém tiveram uma distribuição bastante fraca, devido a uma Hollywood machista que não permitia que as mulheres tivessem cargos importantes e muito menos produzissem filmes. Em 1949, ela desempenhou um de seus papéis mais famosos: a Dalila de "Sansão e Dalila" (Samson and Delilah), um épico de Cecil B. DeMille e a maior bilheteria daquele ano. 
Após "Sansão e Dalila", Lamarr fez alguns filmes que fracassaram e então decidiu viajar para a Itália, onde fez alguns filmes, chegando a produzir mais um filme: "Amores de Três Rainhas" (L'amante di Paride), filme onde ela desempenhou três papéis distintos. "Amores de Três Rainhas" foi concebido como um filme luxuoso, o que acabou estourando o orçamento e pela falta de interesse na distribuição, o filme acabou fracassando, fazendo com que Lamarr perdesse milhões de dólares. Seu último filme seria "Náufrago de uma Ilusão" (The Female Animal), de 1958.
Desde pequena ela era fascinada em saber como as coisas funcionavam. Um de seus hobbies era o estudo sobre invenções. Chegou a elaborar um semáforo melhorado de trânsito e um tablete de Coca Cola que dissolvia na água, porém essa última invenção não foi bem sucedida. Chegou a desenhar um novo modelo de avião mais rápido, para Howard Hughes. Huhes chegou a montar um pequeno laboratório para Lamarr pôr em prática seus experimentos. 
Durante a Segunda Guerra Mundial, ela descobriu que os torpedos guiados por ondas de rádio, podiam ser facilmente bloqueados e desviados do curso final. Ela pensou em criar um sinal que não pudesse ser rastreado e nem bloqueado. Ao lado de seu amigo, o pianista George Antheil, desenvolveu uma tecnologia que eles patentearam. Lamarr ofereceu sua ideia para a Marinha, que recusou qualquer tipo de invenção vinda de fora do Exército. Na década de 60, uma versão de seu projeto era utilizada pela Marinha, justamente quando a patente havia sido expirada.
Ironicamente, Lamarr não recebeu nenhuma bonificação por sua invenção que está presente até hoje em nosso cotidiano através do GPS, Bluetooth e Wi-fi, que permitem troca de informações sigilosas. Na década de 90, Lamarr passou a ser reconhecida por sua invenção e em 1997 a  Electronic Frontier Foundation, lhe premiou por sua contribuição. Seu parceiro Antheil, não viveria para ver esse reconhecimento. Ele faleceu em 1959. Considerada a "mãe" dos celulares, recebeu diversas homenagens: em 1997, recebeu do Governo dos Estados Unidos menção honrosa "por abrir novos caminhos nas fronteiras da eletrônica". E em 2014 foi incluída no Hall da Fama dos Inventores. Na Alemanha, o dia do inventor é celebrado no dia do seu aniversário, desde 2005.
No início da década de 90, Lamarr passou a ser uma pessoa reclusa, evitando contato até com seus familiares. Conforme foi envelhecendo, passou a ser cobrada por não conseguir manter a beleza dos tempos áureos. Algumas pessoas chegaram a tratá-la com crueldade, mencionando que ela não era mais bonita como antes. Por causa desses tipos de comentários, Lamarr acabou fazendo diversos procedimentos estéticos que acabaram deformando seu rosto. Por vergonha, evitou ao máximo aparições públicas. Não compareceu em nenhuma das homenagens que recebeu e suas aparições se tornaram cada vez mais raras. Ela se comunicava com as pessoas através do telefone. Lamarr faleceu aos 85 anos, em 19 de janeiro de 2000.
"As pessoas são irracionais, ilógicas e egocêntricas. Ame elas de qualquer maneira. Se você faz bem, as pessoas vão te acusar de motivos alternativos egoístas. Faça o bem de qualquer maneira. As maiores pessoas com as maiores ideias, podem ser abatidas pelas menores pessoas com as menores mentes. Pense grande de qualquer maneira. O que você gasta anos construindo pode ser destruído durante a noite. Construa de qualquer maneira. Dê ao mundo o melhor que você tem."
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