GARBO - O MITO

Ela foi uma das grandes atrizes da Era de Ouro do Cinema. Possuía um estilo único. Uma aura. Um magnetismo. Um mistério. Começou a carreira ainda no cinema mudo e causou sensação quando estrelou seu primeiro filme falado. Era uma atriz avessa ao estrelismo e possuía hábitos peculiares. Rejeitava qualquer tipo de interação com repórteres, dando poucas entrevistas e declarações públicas. Queria ser reconhecida por seu talento, mas as pessoas queriam tratá-la como uma estrela. Cansada do jogo de Hollywood, causou espanto ao largar sua carreira, para viver de forma anônima. Recebeu diversos convites para retornas às telas, mas sempre algo dava errado. Tais acontecimentos alimentaram mais ainda o mito que Greta Garbo se tornaria.
Seu nome de batismo era Greta Lovisa Gustafsson, nascida em Estocolmo em 18 de Setembro de 1905. Antes de atingir o estrelato, trabalhou como assistente em uma barbearia, mas seria em uma loja de departamentos, que sua vida iria mudar para sempre. Na loja, Garbo estrelou diversos comerciais sobre moda feminina. Ao ser notada por um diretor, ganhou um papel em uma peça. Entre 1922 e 1924, estudou teatro em uma das escolas mais importantes da Suécia. Foi nesse período, que foi notada por Mauritz Stiller, que a convidou para fazer um papel no filme "A saga de Gösta Berlings" (Gösta Berlings saga). Em seguida, fez "A Rua Das Lágrimas" (Die freudlose Gasse) sob direção de G. W. Pabst e dividindo o protagonismo com Asta Nielsen.
Stiller, recebeu um convite da MGM, para dirigir filmes nos Estados Unidos e levou consigo Garbo. Em 1925, Stiller e Garbo partiriam para os Estados Unidos. Ao chegarem no aeroporto, foram recebidos apenas por um agente do estúdio e um fotógrafo. Essa seria uma das primeiras decepções de Garbo com Hollywood. Ficaram seis meses sem nenhum tipo de contato com o estúdio. Prestes a retornar para a Suécia, Garbo recebeu um telegrama para um teste. Ao fazer o teste, impressionou a todos, principalmente Irving Thalberg, na época o grande produtor da MGM. Ele se encantou com o que viu nos copiões, mas pediu para que Garbo passasse por um tratamento de beleza. Garbo então teve seus dentes arrumados, emagreceu e teve aulas de inglês. 
Seu primeiro filme em Hollywood foi "Laranjais em Flor" (Torrent). O filme foi um sucesso de público e Garbo teve seu nome alavancado. Seu segundo filme americano foi "Terra de Todos" (The Temptress), filme que Garbo acreditaria ser dirigida por Stiller, que devido ao seu temperamento difícil, foi demitido e retornou para a Suécia. Os dois jamais voltariam a se encontrar. Foi durante esse filme, que Garbo recebeu a notícia de que sua irmã Alva, havia falecido. Não foi liberada para dar o último adeus à sua irmã. Dizem que esse acontecimento a magoou profundamente e fez com que ela desenvolvesse uma certa aversão por Hollywood. Após esse filme, Garbo fez mais filmes mudos que fizeram sucesso. Talvez o maior de todos seja "A Carne e o Diabo" (Flesh and the Devil), filme em que Garbo interpreta Felicitas, uma vamp que causa a discórdia ao fazer jogos amorosos com dois amigos de longa data. O filme evidencia a química que Garbo e John Gilbert possuíam dentro e fora das telas. Os dois tiveram um turbulento relacionamento, rompido por Garbo, que se recusava a casar.
No final da década de 20, o cinema passava por uma grande transformação: os filmes mudos davam lugar aos filmes falados. Tal mudança causou bastante comoção. Diversas carreiras se findaram com a transição do cinema mudo para o falado. Atores e atrizes que não possuíam uma voz atraente ou forte sotaque não eram aceitos pelo público. Temia-se que o mesmo ocorresse com Garbo.
"Anna Christie", foi seu primeiro filme falado. Foi feito um grande circo midiático em cima disso. Um slogan foi criado para anunciar a novidade: "Garbo Fala!" anunciava que em 1930, Greta Garbo teria sua voz ouvida pelo público. Na MGM temia-se que a maior de suas estrelas fosse rejeitada pelo público devido ao seu forte sotaque. O oposto ocorreu. As pessoas se encantaram por aquele sotaque carregado e o filme foi um grande sucesso, dando a Garbo a sua primeira indicação ao Oscar na categoria de Melhor Atriz. Aproveitando o sucesso do filme, foi filmada uma versão em alemão. Tal prática era comum nesse período já que a dublagem não era tão popular.
Ainda em 1930, filmaria "Romance", filme que lhe daria a sua segunda indicação simultânea ao Oscar. Mesmo concorrendo duas vezes ao prêmio, perdeu para Norma Shearer em "A Divorciada" (The Divorcee). Em 1932, Garbo se juntaria a astros e estrelas da MGM, como Joan Crawford, Lionel e John Barrymore, no filme "Grande Hotel", outro grande sucesso do estúdio. Em 1933, após um período de férias, renovou seu contrato com a MGM, sob a condição de estrelar um filme sobre a rainha Cristina da Suécia. Foi então que surgiu "Rainha Christina" (Queen Christina), uma das grandes produções da MGM na época. Um close-up de seu rosto, no final do filme, entrou para a galeria de grandes cenas do cinema.
Em 1935, Garbo interpretaria mais uma vez a trágica Anna Karenina. Garbo já havia interpretado Karenina, no filme "Love" de 1927. No ano seguinte interpretaria uma das suas maiores personagens: a cortesã Marguerite Gautier em "A Dama das Camélias" (Camille), baseado no romance de Alexandre Dumas Filho. "A Dama das Camélias" tornou-se a sua maior e mais conhecida atuação, dando-lhe a sua segunda indicação ao Oscar, perdendo para Luise Rainer em "Terra dos Deuses" (The Good Earth), que havia ganho no ano anterior por "Ziegfeld - O Criador de Estrelas" (The Great Ziegfield).
Em 1938, faria "Madame Waleska" (Conquest), mais uma grande produção da MGM, baseada no romance entre a personagem título e Napoleão. O filme foi feito com ares de superprodução com um grande orçamento, mas as bilheterias não corresponderam os gastos e esse foi o primeiro fracasso de Greta Garbo em bilheteria. Por causa do fracasso em bilheteria de "Madame Waleska", Garbo teve seu nome incluso em uma lista chamada de "Venenos de Bilheteria" (Box Office Poison).
Em 1939, a MGM decidiu que seria a hora de dar a Garbo um papel mais leve. Surgiu então "Ninotchka". E assim como ocorreu em "Anna Chistie", a MGM criou um slogan para explorar a nova faceta de sua estrela: "Garbo Ri!". Com direção de Ernst Lubitsch e no roteiro Billy Wilder, o filme foi um grande sucesso e o nome de Garbo voltou ao topo das bilheterias. Garbo recebeu sua última indicação ao Oscar, perdendo para Vivien Leigh em "...E o Vento Levou" (Gone With the Wind). Com o sucesso de "Ninotchka", a MGM achou que tinha achado o gênero perfeito para Garbo: a comédia. Seu próximo filme seria "Duas Vezes Meu" (Two-Faced Woman) de 1941. Dirigido por George Cukor, o filme seria o maior erro de todos os tempos que a MGM poderia cometer. 
Garbo chegou a recusar o roteiro de "Um Rosto de Mulher" (A Woman's Face), por medo de ser hostilizada ao interpretar uma personagem que a princípio seria considerada uma vilã. Joan Crawford pegou o papel e deu uma de suas maiores performances, mesmo não sendo indicada ao Oscar. "Duas Vezes Meu", irritou a gama conservadora, por causa de sua história: uma mulher se passa por uma irmã gêmea que não existe, para descobrir se seu marido é um homem fiel. Mesmo o público tendo noção de que era uma farsa a situação, o filme acabou incomodando grupos religiosos que pregaram boicote ao filme. 
Com o fracasso de crítica de "Duas Vezes Meu" e com a chegada da Segunda Guerra Mundial, Garbo decidiu dar uma pausa em sua carreira. Tal pausa tornou-se definitiva, quando decidiu reincidir seu contrato com a MGM. Nos anos posteriores, chegou a se interessar por alguns projetos, fazer testes e assinar contratos, porém algo sempre dava errado. Após tentativas fracassadas de um possível retorno, Garbo decidiu definitivamente não retornar para o cinema. Chegou a receber convites durante as décadas de 40 e 50, mas recusou todos.
Garbo era diferente de tudo o que Hollywood significava: era uma pessoa discreta, não respondia cartas de fãs e nem dava autógrafos, não comparecia a festas e celebrações, muito menos em cerimônias do Oscar, preferia a companhia de amigos íntimos e detestava dar entrevistas. Tais atitudes a fizeram ser conhecida como a "esfinge sueca".
Em sua aposentadoria das telas, Garbo viveu a vida que sempre quis: vivia sozinha ou rodeada de amigos íntimos, colecionava obras de arte e viajava. Evitava aparições públicas, mas mesmo assim foi fotografada diversas vezes por paparazzis que a perseguiam. Nos anos de Ouro, contrariou Louis B. Mayer, ao recusar-se em casar e a ter filhos, prática imposta sobre as estrelas e os astros de Hollywood. Manteve-se assim até o fim da vida.
Greta Garbo faleceu aos 84 anos, em 15 de abril de 1990. Certa vez, em uma de suas raras entrevistas, disse uma frase que a definiria para sempre: "Há muitas coisas em seu coração que você nunca deve contar a ninguém. Seria baratear o seu íntimo sair espalhando-as por aí.”

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GARBO - O MITO GARBO - O MITO Reviewed by Rodrigo Veninno on 08:00 Rating: 5

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