ANNA MAY WONG - O ÍCONE INJUSTIÇADO

Anna May Wong é um rosto familiar para quem curte filmes clássicos. Principalmente os da década de 30. Ela possuía todos os requisitos para ser uma grande estrela do cinema: era bonita, inteligente, elegante, carismática, misteriosa, tinha personalidade, porém em Hollywood, pessoas de etnias não eram bem aceitas em papéis de destaque. Nem beijos entre pessoas de etnias diferentes eram permitidos. Então, Anna passou a maior parte de sua carreira fazendo personagens "exóticas", em filmes americanos. Mesmo quando podia ter a chance de pegar um importante papel de sua etnia, ela era descartada. E assim foi a carreira de Anna May Wong. Cheia de injustiças e preconceitos raciais.
Anna nasceu em 3 de janeiro de 1905, em Los Angeles. Seus pais eram chineses da segunda geração e seu nome de batismo era Wong Liu Tsong. Ainda adolescente criou seu nome artístico. Foi na adolescência também que despertou seu amor pelo cinema, passando tardes vendo filmes. Em 1919, trabalhando em uma loja de departamentos, ficou sabendo que a Metro Pictures precisava de figurantes para um filme estrelado por Alla Nazimova. Conseguiu um papel não creditado.
Após uma sequência de papéis como figurante e um papel notável ao lado de Lon Chaney no filme "Bits of Life", Anna estrelaria como protagonista um de seus filmes mais famosos: "The Toll of the Sea" em 1922, sendo o primeiro filme em Technicolor de duas tiras feito em Hollywood. Seu desempenho no filme foi bastante comentado e aclamado. Anna atingiu o estrelato em Hollywood, mas Hollywood não estava disposta a manter seu brilho. Na época, Hollywood não se sentia segura em dar papéis de destaques para atores de outras etnias, foi então que as frustrações de Anna começaram.
Em 1924, em um papel coadjuvante em "O Ladrão de Bagdá" (The Thief of Bagdad), Anna foi bastante aclamada. Mesmo interpretando um papel que estereotipava sua etnia, ela pensou que dessa vez teria a chance de ser uma grande estrela protagonista de filmes. Mesmo nascida no país, os americanos faziam questão de cultuá-la como uma estrangeira. Em 1924, chegou a montar a sua própria produtora, afim de valorizar os mitos de sua etnia nos filmes, mas a produtora não foi pra frente, devido a um golpe dado por um de seus sócios.
No final dos anos 20 até o início da década de 30, Anna continuou recebendo diversos papéis como coadjuvante e sendo boicotada por sua etnia. Chegou a perder diversos papéis de destaque. Os diretores reconheciam seu talento e brilho, mas recusavam-se a lhe dar um papel de liderança. Foi então que Anna decidiu se afastar de Hollywood por um tempo. Em 1929, fora de Hollywood conseguiu estrelar como protagonista "Picadilly" que seria seu último filme mudo. Ironicamente, não pôde beijar seu parceiro de tela no filme. 
Após um período na Europa onde conseguiu alguns papéis de destaque, Anna volta para Hollywood, na esperança de ser aceita, já que na época, os estúdios estavam trazendo para Hollywood estrelas estrangeiras, mas isso não aconteceu. Os papéis estereotipados voltaram: as chinesas vingativas, as prostitutas, as vilãs sexualizadas. Anna começou a protestar sobre as condições de trabalho em que era submetida. Nesse período, faria um papel coadjuvante em "O Expresso de Shangai" (Shanghai Express) sendo dirigida por Josef von Sternberg e atuando ao lado de Marlene Dietrich, de quem se tornaria muito amiga. Nesse mesmo período, Anna se via no meio de uma briga entre a China e Hollywood. A China acusava Hollywood de usar a atriz para manchar a imagem dos chineses nos filmes.
Sua maior decepção ocorreria ao perder o papel principal no filme "Terra dos Deuses" (The Good Earth) para Luise Rainer que fez uso de "Yellow-Face" (ato de se caracterizar como um asiático) para o papel de uma chinesa e chegou a ganhar um Oscar na categoria de Melhor Atriz. Na época, o Código Hays não permitia o beijo entre atores de etnias diferentes, mesmo que no filme os personagens tivessem a mesma etnia. Lhe foi oferecido um papel no filme de uma chinesa que novamente ia a favor dos estereótipos que ela sempre detestou. Decepcionada e bastante frustrada, ela recusou o papel. 
No final da década de 30, após lutar e criticar, Anna finalmente recebeu um papel de protagonista em "A Filha de Shangai" (Daughter of Shanghai), papel que fugia dos rótulos que Hollywood impunha aos asiáticos. No final da década de 40, decidiu afastar-se dos filmes, se concentrando mais em eventos sociais, aplicando seus ganhos em imóveis e chegando a estrelar uma série televisiva escrita especialmente para ela. Sua última participação em filmes seria em 1960 em "Retrato em Negro" (Portrait in Black).
Em 3 de fevereiro de 1961, Anna May Wong morreria após sofrer um ataque cardíaco aos 56 anos. Após sua morte, seu nome e legado foram esquecidos por anos na China, mas reverenciados no mundo inteiro. Ela chegou a ser homenageada com poemas, teve dois prêmios que levaram seu nome na década de 70 e ganhou uma peça baseada em sua vida na década de 90. Em 2020, chegou a ser homenageada nas páginas de busca do Google. 
Talvez o seu maior legado tenha sido a sua luta contra a discriminação descarada que Hollywood lhe promovia. Graças à Anna, hoje em dia atores de diversas etnias tem espaço para protagonizarem filmes. Em seu tempo, Anna não teve o reconhecimento e o respeito que merecia, mas hoje em dia ela está entre as maiores estrelas de todos os tempos, sendo constantemente reverenciada e homenageada e seu nome está em evidência como um símbolo de luta e respeito dentro e fora de Hollywood.

"Eu estava cansada dos papéis que tinha que fazer. Por que o chinês é sempre o vilão cruel? Nós não somos assim. Nós temos nossas virtudes. Por que eles nunca mostram nossas virtudes na tela? Por que temos sempre que matar e roubar?"


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