AS ATRIZES NEGRAS PIONEIRAS

Houve uma época dentro e fora de Hollywood, em que a presença de negros era expressamente proibida. Alguns atores brancos, usavam o Blackface, para representarem os negros, mas nem sempre, ou melhor na maioria das vezes não era uma representação justa. O Blackface servia para ridicularizar os negros e  reforçar diversos estigmas impostos a eles. Um tempo depois, a presença de negros era tolerada, desde que eles fizessem papéis de empregados. Aos poucos, diversas paredes de intolerância foram derrubadas. Hattie McDaniel foi a primeira atriz negra a ganhar um Oscar, em 1940. Ela foi proibida de estar no mesmo ambiente dos demais atores e quase foi banida da comemoração, se não fosse por um protesto de seus colegas de filme, protesto esse liderado por Clark Gable. A vitória de Hattie e a forma como foi tratada por Hollywood, acendeu diversos debates, mas mudanças significativas demoraram a acontecer. Hollywood deu uma abrandada no racismo a partir da década de 60, produzindo filmes que tocavam nessa ferida racial e colocando atores como Sidney Poitier para protagonizarem filmes. A lista de hoje, traz atrizes que de certa forma se empenharam para terem seus nomes reconhecidos e lutaram contra o sistema racista. Algumas tiveram êxito, outras não. Algumas são lembradas até hoje, enquanto outras se tornaram esquecidas. Vale lembrar que algumas delas enveredaram para a música ou para o rádio, por serem dois campos mais tolerantes. No rádio, as pessoas não podiam fazer distinção de cor, por apenas ouvirem suas vozes. Na música, eram toleradas, pois os negros eram associados a esse campo. Vale lembrar que tivemos grandes atores negros que também possuem grande importância na luta contra o racismo, mas o intuito desse post é homenagear e reverenciar essas mulheres que sofreram por dois motivos: por serem negras e por serem mulheres.
P.S. Hattie McDaniel não está nessa lista, pois há algum tempo fiz um post especial homenageando-a.
Clique aqui para ler esse post.

Josephine Baker
Conhecida como a "Vênus Negra", é considerada a primeira grande artista negra da história. Começou sua carreira como artista de rua, ainda criança. Entre 1921 e 1924, esteve em alguns espetáculos da Broadway. Causou sensação ao se apresentar em Paris. Durante a Segunda Guerra, chegou a atuar como espiã e teve um importante papel na resistência. Recebeu diversos méritos como a Cruz de Guerra. Na década de 50, lutou contra o racismo, apoiando Martin Luther King e chegou a recusar apresentar-se para o público segregado nos Estados Unidos.

Nina Mae McKinney
Nina, foi uma das primeiras estrelas do cinema afro-americanos nos Estados Unidos, bem como uma das primeiras afro-americanas a aparecer na televisão britânica. Trabalhou na década de 30 e fez diversas participações no cinema, teatro e televisão. Na Europa, era conhecida como a "Garbo Negra". Nina, assim como diversos artistas negros, foram para a Europa, por lá ser um local mais tolerante e que oferecia mais oportunidade de trabalho. Em 1936, ela recebeu seu próprio especial de televisão na BBC.

Hilda Simms
Seu maior sonho era ser professora, mas a falta de dinheiro a fez desistir desse sonho. Mudou-se para NY, onde participou de programas de rádio. Tornou-se membro do American Negro Theater, onde formou-se como atriz. Enquanto fazia parte do American Negro, chegou a trabalhar com efeitos sonoros, acessórios e publicidade. Em 1943, protagonizou "Anna Lucasta", peça que causou polêmica, por trazer um elenco totalmente composto por negros, sendo que a peça havia sido concebida para atores brancos. A peça foi pioneira, por trazer atores negros, mas sem fazer referência a etnia em seu enredo. Chegou a ter uma carreira de cantora de boate de Paris sob o nome de Julie Riccardo. Nos anos 50, ela foi vítima da lista negra de Hollywood. Em 1955, chegou a ter seu passaporte negado, por suspeitas de envolvimento com o partido Comunista entre as décadas de 30 e 40. Por causa disso, teve sua carreira no cinema prejudicada, mas continuou nos palcos e chegou a atuar na televisão, além de ter seu próprio programa de rádio. Se tornou participante de movimentos políticos e tornou-se diretora de artes Comissão de Direitos Humanos do Estado de Nova York. Chegou a realizar seu antigo sonho de ser professora.

Pearl Bailey
Fez sua estreia no teatro aos 15 anos. Anos mais tarde, cantava e dançava em casas noturnas para negros na Filadélfia. Durante a Segunda Guerra, percorreu o país apresentando-se para soldados. Em 1946, fez sua estreia na Broadway e ganhou um prêmio na categoria de atriz estreante. Na década de 60, protagonizou uma versão negra de "Hello Dolly!", que fez um enorme sucesso, fazendo com que a peça fosse pra Broadway, onde Pearl prosperou e ganhou um Tony Award Especial. Chegou a se formar em Teologia, em 1985, aos 67 anos. 

Louise Beavers
Louise fez carreira entre as décadas de 20 e 60 e sempre nos papéis de empregada doméstica. Devido a pouca variedade de papéis, a atriz acabou se tornando um "ícone" das atrizes que interpretavam empregadas. Por causa disso, Louise acabou sendo estereotipada, como a atriz que sempre interpretava empregadas gordas e amáveis. Louise começou sua carreira na década de 20, onde os negros não possuíam chance alguma no cinema. Certa vez em uma entrevista declarou: "Em todos os filmes que eu tenho visto ... Eles nunca usavam pessoas de cor para nada, exceto para personagens selvagens". Em 1934, quebraria um importante estereótipo, ao participar da primeira versão de "Imitação da Vida" (Imitation of Life), em um dos papéis principais, porém dramático. Sua interpretação emocionou o público e a crítica, porém foi sumariamente ignorada pela Academia que não a indicou. Beavers foi uma das atrizes negras a protagonizar um programa de rádio.

Ethel Waters
Começou sua carreira na década de 20 cantando blues. Na Broadway tocava jazz e swing. Ela foi a primeira negra a ter seu próprio programa de televisão e a primeira negra a ser indicada ao Primetime Emmy Award. Ela se tornou a primeira mulher negra a integrar a Broadway e a ser uma das mais bem pagas, mas apesar disso, sempre encontrou dificuldade em arrumar trabalho. Foi indicada ao Oscar em 1949, por seu desempenho dramático em "O que a Carne Herda" (Pinky), sendo dirigida por Elia Kazan. O diretor inicial era John Ford, que desistiu do projeto por odiá-la. Em 1950, foi a primeira atriz negra a protagonizar uma série de televisão, "Beulah". Saiu da série no ano seguinte, por não concordar com a forma em que os negros eram retratados na série. 

Juanita Moore
Estreou no cinema em 1939 e teve uma carreira repleta de pequenos papéis e em sua maioria como empregadas. Tornou-se conhecida ao participar da refilmagem de "Imitação da Vida", no papel que antes foi de Louise Beavers. Chegou a ser indicada ao Oscar e ao Globo de ouro na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante. Fez participações na televisão e no teatro.

Butterfly McQueen
Antes de ser atriz, era uma dançarina. Sua estreia no cinema aconteceu no filme "...E o Vento Levou" (Gone With the Wind), seu papel mais famoso, o da escrava Prissy. Ela não pôde assistir à estreia do filme, porque foi realizada em um cinema exclusivamente para brancos. Foi uma das atrizes negras que tiveram coragem em enfrentar o sistema racista de Hollywood. Chegou a dar diversas entrevistas falando sobre o fardo que um artista negro enfrentava em Hollywood. Em uma dessas entrevistas declarou: "Eu não me importei de bancar empregada doméstica pela primeira vez, porque pensei que era assim que você entrava no negócio. Mas depois que eu fazia a mesma coisa repetidamente, me ressentia. Não me importei de ser engraçada, mas não gostei de ser estúpida." Cansada dos papéis pequenos, sem créditos e irrelevantes, Butterfly aposentou-se dos filmes em 1947. Após encerrar sua carreira no cinema, fez diversas participações no rádio e pequenas participações televisivas. Voltou aos filmes em 1986 com uma pequena participação em "A Costa do Mosquito" (The Mosquito Coast).  Ela se dedicou a outras atividades, incluindo estudos políticos. Ela recebeu um diploma de bacharel em ciências políticas pelo City College de Nova York em 1975. Em 1983, foi indenizada, após sofrer um episódio de racismo, onde foi acusada por dois seguranças de ser uma ladra, sendo que ela estava apenas esperando um ônibus em uma rodoviária, em 1979.

Lena Horne
Lena Horne talvez, tenha sido uma das atrizes negras que mais sofreram com o racismo dentro e fora de Hollywood. Chegou a perder diversos papéis por sua etnia, teve participações em filmes cortadas em países que não aceitavam artistas negros em ascensão e nunca pôde ser uma protagonista de filmes. A maioria de suas participações nos filmes, eram filmadas de um modo que pudessem ser cortadas sem afetar o andamento do filme .Horne foi a primeira atriz negra eleita a servir no conselho de diretores da Screen Actors Guild. Na década de 50, Horne estava desencantada com Hollywood e passou a se dedicar a cantar em boates. Teve também seu nome na lista negra, o que influenciou mais ainda sua ausência nos filmes. Em 1958, Horne se tornou a primeira mulher negra a ser indicada ao Tony Award de Melhor Atriz em um Musical. Horne foi uma grande ativista pelos direitos civis. Chegou a recusar apresentar-se em uma plateia de soldados alemães que estavam sentados na frente dos soldados negros. Foi indicada 8 vezes ao Grammy, ganhando 4.

Eartha Kitt
Eartha Kitt, foi uma das mulheres mais multifacetadas que já pisaram nesse mundo: além de atriz, era cantora, dançarina, comediante, ativista, escritora e compositora. Sua carreira como atriz começou em 1942. No início da década de 50, era uma das cantoras mais populares dos Estados Unidos. Em 1967, ousou ao aceitar o papel de Mulher-Gato, na última temporada de "Batman". As afiliadas de televisão não receberam bem uma atriz negra no papel. Anos mais tarde seria a vez de Halle Berry sofrer críticas ao interpretar a mesma personagem no filme de 2004. Na época do seriado, não era permitido romances inter-raciais. Nas duas primeiras temporadas, havia uma tensão sexual entre a Mulher-Gato e o Batman. Na temporada em que a personagem foi interpretada por Eartha Kitt, a dinâmica da personagem foi alterada e os produtores abordaram uma tensão romântica entre Batman e Batgirl. Um beijo inter-racial só foi exibido na televisão americana em 1968, em um episódio de "Jornada nas Estrelas" (Star Trek).

Dorothy Dandridge
Dorothy talvez seja a atriz negra que conseguiu ser bem-sucedida em Hollywood, mas isso não significa que o caminho foi fácil. Além de atriz, era cantora e dançarina. Foi a primeira atriz negra a ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz, por seu papel em "Carmen Jones" de 1954. Chegou a ganhar uma estrela na Calçada da Fama. Em 1954 se tornou a primeira mulher negra a aparecer na capa da Life. No ano seguinte, apresentou uma categoria na cerimônia do Oscar, onde anteriormente era proibida a entrada de negros.

Diahann Carroll
Diahann foi uma cantora, modelo, ativista e atriz. Em 1962, foi a primeira mulher negra a ganhar um Tony Awards. Em 1968, estrelou "Julia", primeira série de televisão que trazia uma negra como protagonista, mas livre de estereótipos. Na série, Diahann interpretava uma enfermeira que era mãe solteira. Chegou a ganhar um Globo de Ouro por esse papel. Tornou-se uma das atrizes negras mais populares e aclamadas de todos os tempos e manteve-se na ativa por praticamente 60 anos. Estrelou em 1995 uma versão teatral de "Crepúsculo dos Deuses" (Sunset Blvd), no papel principal de Norma Desmond.

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3 Comentários

  1. Válido o resgate destas preciosidades,como arte desta glamourosas atrize e exemplo de ativismo contra a segregação da época e hoje ainda.
    Cito aqui,o grandes cantores de blue,jazz e soul,também vítimas deste conceito que na realidade,nos trás somente constrangimento total.
    Uma saudosa lembrança de Malcolm e Lhuter King.

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  2. Parabens pela publicação!!!

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