JOAN CRAWFORD - ALÉM DO GLAMOUR

Joan Crawford foi uma das atrizes mais populares de Hollywood da Era Clássica. Sua carreira se iniciou ainda no cinema mudo. Conseguiu fazer a tão temida transição para os filmes sonoros e teve bastante popularidade entre as décadas de 30 e 40. Era considerada ao lado de Norma Shearer e Greta Garbo, uma das rainhas da MGM, mas isso não significava que ela estava no mesmo patamar que as outras duas. Sua carreira no estúdio foi bastante turbulenta, já que se preocupavam em criar uma imagem glamourosa dela, colocando seu talento em segundo plano. Ela foi muito subestimada durante a era MGM, já que recebia muitas vezes roteiros recusados tanto por Norma Shearer, quanto por Garbo, mas às vezes mesmo em um filme mediano, ela conseguia se sobressair, mas nem sempre ela teve essa sorte e amargou alguns fracassos de bilheteria que a transformaram em "veneno de bilheteria". Após ser demitida da MGM, foi contratada pela Warner e foi a partir daí que passou a ser levada a sério como atriz e teve seu talento reconhecido, ganhando inclusive um Oscar.

Seu nome de batismo era Lucille Fay LeSueur e seu sonho era ser dançarina. Quando criança, sofreu um acidente que quase a impediria de realizar esse sonho. Começou sua carreira de dançarina, viajando pelos Estados Unidos com companhias teatrais. Em busca de um trabalho extra, fez um teste de tela para a MGM e foi contratada recebendo 75 dólares por semana. Sua primeira aparição nas telas ocorreu em "Lady of the Night", em 1925. No filme estrelado por Norma Shearer, Joan que na época ainda era creditada como Lucille, trabalhou como dublê de Norma Shearer que faz gêmeas no filme. Como na época não havia tecnologia para juntar um ator ou atriz que desempenhasse papel duplo na mesma cena, era normal a contratação de dublês que fossem parecidos com os atores.

Após uma sequência de papéis pequenos e muitas vezes não creditados durante 1925, Lucille foi notada por um chefe de publicidade do estúdio que enxergou um grande potencial na atriz desconhecida. Promoveu então uma forte campanha que incluía até a escolha de um nome artístico mais apropriado. Após um concurso em uma revista, seu nome artístico foi definido e assim nasceu "Joan Crawford". Mesmo após uma grande mobilização para torná-la uma estrela em ascensão na MGM, Joan se sentiu frustrada, pois achava que o estúdio não a estava levando a sério. Passou então a fazer a sua própria promoção, aparecendo em festas e participando de concursos de danças para que fosse notada. 

Sua estratégia funcionou e ainda em 1925, estrelou "Sally, Irene e Mary", sendo uma das protagonistas, ao lado de Constance Bennet e Sally O'Neil. O filme fez sucesso e finalmente a trouxe para o estrelato, mas a partir daí contou com a ameaça constante de Norma Shearer que era a prioridade do estúdio na escolha de papéis e projetos. O prestígio de Norma devia-se além do seu talento, o fato de ser casada com Irving Thalberg o produtor chefe da MGM na época.

Entre 1927 e 1928, apareceu em alguns filmes. Deste período podemos destacar ""O Monstro do Circo" (The Unknown), ao lado de Lon Chaney e "Procelas do Coração" (Across to Singapoure) ao lado de Ramón Novarro, dois grandes sucessos de bilheteria, mas foi com "Garotas Modernas" (Our Dancing Daughters) que finalmente sua carreira ascendeu. Em 1929, faria seu primeiro filme falado "A Indomável" (Untamed). 

Em 1931, iniciou uma parceria (e futuramente um caso amoroso) com Clark Gable. Desta parceria sairiam 8 filmes. Os mais notáveis foram "Possuída" (Possessed) (1931), "Amor de Dançarina" (Dancing Lady) e "Almas Rebeldes" (Strange Cargo). Em 1932, foi escalada para "Grande Hotel", primeiro filme da MGM que reunia alguns dos maiores astros e estrelas da casa em um roteiro bastante cuidadoso para que todos brilhassem. Houve uma grande comoção pelo fato do filme ter Greta Garbo no elenco e sugiram notas tendenciosas nos jornais e revistas de cinema que alimentavam uma possível rivalidade entre Joan e Garbo. Em entrevistas, Joan deixava bem claro que admirava Greta Garbo e que sonhava com uma possível cena em que as duas contracenassem. Infelizmente a cena não foi concebida e Greta Garbo seguiu em silêncio sobre o assunto. "Grande Hotel" foi um dos grandes sucessos daquele ano, tanto de crítica quanto de bilheteria e chegou a ganhar a estatueta de melhor Filme no Oscar.

Em 1932, estrelou "Redimida" (Letty Lynton), filme que causou mais polêmica em seus bastidores do que nas telas de cinema. A MGM foi acusada de plágio e teve que retirar o filme de circulação. O filme só poderá ser visto a partir de 2025, ano que entra em domínio público. Ainda em 1932, foi emprestada à United Artists para estrelar a primeira versão sonora de "Rain", interpretando a prostituta Sadie Thompson, magistralmente interpretada por Gloria Swanson anos antes no cinema mudo. 

Entre 1932 e 1937, ela estrelou diversos filmes que foram sucessos de bilheteria, trabalhando com diversos atores prestigiados da época como: William Powell, Spencer Tracy, Gary Cooper e Franchot Tone, ator que foi um de seus maridos. Ela chegou a casar-se também com Douglas Fairbanks Jr em 1929. Em 1938, amargou uma sequência de filmes que a classificaram como "Veneno de Bilheteria", termo usado para atores e atrizes que ganhavam um salário astronômico, mas os filmes estrelados por eles causavam prejuízos para os estúdios e salas de exibição.

Em 1939, conseguiu êxito ao ser uma das protagonistas de "As Mulheres" (The Women), ao lado de sua grande rival Norma Shearer. O filme foi um grande sucesso e trouxe a popularidade para Joan Crawford novamente. A rivalidade entre as atrizes foi amplamente explorada pelos jornais e revistas da época e isso fez com que as pessoas fossem aos cinemas para conferirem o resultado final. Após anos na MGM, lhe foi construída a imagem de mulher e atriz glamourosa e em todos os filmes do  estúdio, Joan aparecia de forma elegante, nos melhores vestidos e penteados. Chegou a lançar diversas tendências de moda. O vestido usado em "Letty Lynton" foi copiado por diversas mulheres.

Cansada dos papéis glamourosos, Joan aceitou dois papéis que fugiam da imagem criada a seu respeito pelo estúdio. Nos filmes "Almas Rebeldes" (Strange Cargo) e "Um Rosto de Mulher" (A Woman's Face), ela se despiu de qualquer vaidade e interpretou mulheres nada atraentes e nem glamourosas. "Um Rosto de Mulher" é uma refilmagem de "A Mulher que Vendeu a Alma" (En kvinnas ansikte), filme sueco de 1938, estrelado por Ingrid Bergman, antes de sua ida para Hollywood. Embora tenha um de seus desempenhos mais tocantes em filmes, Joan passou despercebida pelo Oscar e o filme fez um sucesso moderado. Joan só protagonizou esse filme, após ele ser recusado por Greta Garbo, que temia interpretar uma personagem de caráter controverso. Em 1940, ela romperia barreiras ao adotar Christina, a primeira de seus quatro filhos, como mãe solteira. Em 1942, ela se casou com o ator  Phillip Terry, com quem adotou o segundo de seus filhos. O garoto recebeu o nome de  Phillip Terry Jr, mas após o divórcio dos pais, teve seu nome mudado para Christopher. Anos depois adotou as gêmeas Cindy e Cathy.


Em 1943, após uma relação desgastada com a MGM, seu contrato foi rompido. No mesmo ano foi contratada pela Warner. Na época surgiram boatos que sua contratação foi uma forma de Jack Warner provocar Bette Davis, atriz com a qual Joan Crawford não possuía uma boa relação e que era considerada bastante temperamental por sempre desafiar o chefe, não concordando com a forma como os atores e atrizes eram tratados pelos estúdios. 

Em 1945, começou a produção para uma versão cinematográfica de "Mildred Pierce", baseada no romance escrito por James M. Cain em 1941. Joan Crawford queria que esse fosse seu primeiro papel importante na Warner, mas Bette Davis foi considerada a primeira escolha para o papel. Com a recusa de Bette, Michael Curtiz, diretor do filme, negava-se a dirigir Joan Crawford. Ele ainda tentou sem sucesso convencer Barbara Stanwyck a aceitar o papel. A Warner então o obrigou a aceitar Joan Crawford no papel principal. Ela foi bastante criticada e humilhada pelo diretor, durante a produção do filme.

"Almas em Suplício", título que o filme recebeu aqui no Brasil, tornou-se um grande sucesso de bilheteria e crítica, rendendo a Joan Crawford uma indicação ao Oscar na categoria de Melhor Atriz. Esta seria a sua primeira indicação ao prêmio e mostra o quanto ela não era levada a sério pela MGM na época em que foi uma de suas maiores estrelas. O filme fez com que sua carreira renascesse e ela fosse considerada uma atriz mais séria e talentosa. Pelo seu desempenho neste filme, ela recebeu o prêmio de Melhor Atriz, derrotando atrizes como Ingrid Bergman, Gene Tierney, Jennifer Jones e Greer Garson, atrizes respeitadíssimas pela crítica. Sua vitória finalmente a traria para o patamar destas atrizes conceituadas em Hollywood.

Em 1946, estrelaria "Humoresque", uma refilmagem de um filme mudo, com algumas adaptações no roteiro. Em 1947 receberia sua segunda indicação por "Fogueira de Paixões" (Possessed), um de seus melhores desempenhos tanto de sua carreira, quanto da fase Warner. Em 1948, foi emprestada para a Fox para estrelar o filme "Êxtase de Amor" (Daisy Kenyon). De volta à Warner, estrela os filmes "Caminho para a Redenção" (Flamingo Road) e "Os Desgraçados não Choram" (The Damned Don't Cry). Em 1952, recebe sua última indicação ao Oscar por "Precipícios D'Alma" (Sudden Fear).

Na década de 50, Joan fez filmes para a Warner, além de um retorno para a MGM em "Se Eu Soubesse Amar" (The Torch Song), mas seria a Columbia, o estúdio onde faria a maioria dos seus filmes nessa década. Destaque para "Folhas Mortas" (The Autumn Leaves), onde interpreta uma mulher solitária que tem medo de se apaixonar. O filme é considerado um de seus maiores êxitos nessa fase. Nessa década ela ainda protagonizaria "Johnny Guitar", um dos faroestes que trazia a mulher como personagem principal e em um papel imponente. Este é um de seus filmes mais lembrados.


Em 1955, ela se casaria com Al Steele, presidente da Pepsi. Com a morte de Steele em 1959, ela se tornou conselheira na administração da empresa, muito a contra-gosto dos outros membros. Ela chegou a receber um prêmio por ser o membro que mais contribuiu com as vendas. Ficou no cargo até 1973, quando foi forçada a se afastar da empresa a mando do executivo.

Em 1962, retorna para a Warner para protagonizar ao lado de Bette Davis "O Que Terá Acontecido a Baby Jane??" (What Ever Happened to Baby Jane?). Novamente, Joan estrelaria um filme ao lado de uma grande rival e novamente ela foi vítima do sensacionalismo dos jornais e revistas que publicavam diversos boatos sobre brigas nos bastidores do filme. A campanha sensacionalista deu certo e o filme fez um grande sucesso, dando mais um fôlego momentâneo para sua carreira, já que na época ela começava a envelhecer e Hollywood era bastante cruel com as mulheres que envelheciam.

Em 1964, protagonizou "Almas Mortas" (Strait-Jacket), um filme de horror dirigido e produzido pelo mestre do gênero William Castle. No mesmo ano, aceitou repetir a parceria com sua grande rival Bette Davis em "Com a Maldade na Alma" (Hush ... Hush, Sweet Charlotte), porém se afastou das gravações e foi substituída por Olivia de Havilland. Fez ainda mais quatro filmes, sendo "Trog" o último deles e não muito memorável. 

Após o desastre do filme "Trog", Joan decidiu se afastar das telas. Em 1970, chegou a ser homenageada, recendo um  Prêmio Cecil B. DeMille. Em 1971, escreveu uma segunda autobiografia. A primeira havia sido publicada em 1962. Em 1974, já sofrendo de câncer, fez sua última aparição pública. Foram tiradas fotos que ela considerou desrespeitosas e decidiu isolar-se por medo de ser ridicularizada. Após anos de isolamento e doenças, ela faleceu em 10 de maio de 1977, mas a sua história não terminaria com a sua morte.

Em 1978, sua filha Christina, publica "Mamãezinha Querida", livro onde relata a relação com a mãe. O livro causou polêmica ao trazer para a luz uma Joan Crawford alcoólatra, narcisista, violenta e abusiva, bem diferente da imagem que a atriz passava para o público. O livro ainda teve apoio de Christopher que confirmou todas as passagens escritas no livro. As gêmeas Cathy e Cindy, além de repudiarem o livro, cortaram relações com os dois irmãos e passaram a combater essa imagem concebida da mãe.

Mesmo com a polêmica causada, o livro tornou-se um dos best sellers do ano. Em 1981, o filme ganhou uma adaptação cinematográfica, com Faye Dunaway interpretando Joan. Uma nova polêmica foi causada novamente, a ponto de diversos amigos de Joan Crawford e até mesmo seu ex-marido Douglas Fairbanks Jr, saírem em sua defesa. O filme foi campeão de bilheteria, mas arruinou a carreira de Faye Dunaway, além de arranhar por um bom tempo a imagem de Joan.

Joan Crawford passou anos tendo como referência a imagem criada pelo livro e pelo filme baseados em sua relação com Christina. Passou anos sendo considerada uma megera caricata e todo seu legado no cinema foi posto em segundo plano. Sua imagem melhorou com o público, após a produção de "Feud: Bette vs Joan", uma minissérie escrita e produzida por Ryan Murphy em 2017.


Ryan vendeu a minissérie como um embate entre as divas, mas o seu plano era no final, fazer justiça e redimir a imagem de Joan Crawford perante o público e ao contrário do filme e do livro que a retrataram como uma megera caricata, ele a humanizou. A minissérie fez sucesso e conseguiu promover a limpeza da imagem de Joan, além de apresentar tanto ela quanto Bette Davis, para as novas gerações, além de mostrar o quanto Hollywood era cruel com as mulheres.

Hoje, podemos afirmar que Joan Crawford recuperou o respeito e recebeu justiça por seu legado no cinema e sua vida particular. As pessoas conseguiram desassociar sua imagem de atriz e pessoa, do filme e do livro escrito por sua filha Christina. Entendem que Joan possa ter sido uma mãe severa e dura, mas não da forma como foi retratada e que no fundo por trás da atriz e da figura glamourosa, havia uma mulher que também era humana como todos nós e que passou por diversas dificuldades na vida, para chegar ao sucesso e teve que sempre provar para si e para os demais que ela era qualificada e capacitada como atriz, como estrela de cinema e como ser humano.

"Percebi uma manhã que "Trog" seria meu último filme. Tive que acordar cedo para a sessão de fotos e quando olhei para fora, para o lindo céu da manhã, senti que era hora de me despedir. Acho que pode ter sido um pensamento profético porque quando cheguei ao set naquela manhã, o diretor me disse que devido a cortes no orçamento, encerraríamos as filmagens naquele dia. A última cena desse filme foi única e foi um momento muito emocionante para mim. Quando eu estava subindo aquela colina em direção ao pôr do sol, fui inundada com memórias dos últimos 50 anos, e quando o diretor gritou "corta", eu simplesmente continuei andando. Isso para mim foi a maneira perfeita de encerrar minha carreira no cinema, mesmo o público tendo uma experiência totalmente diferente da minha."

Comentários

  1. Adorei o post enaltecendo o legado de Joan, parabéns! Adorei as fotos ♥
    Continue o bom trabalho no blog ^^

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    Respostas
    1. Amigo querido!! Que felicidade vc por aqui.
      Joan merece sempre o melhor.
      Faz tempo que devia um post justo à ela.

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  2. Joan Crawford é aquele tipo de atriz que igual ou melhor que ela nunca veremos, e a série Feud é espetacular

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  3. Realmente Joan é um exemplo de superação tanto como mulher como atriz. Graças a Deus deixou um legado enorme para felicidade dos fãs. Parabéns pelo post e Sucesso!

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