O YELLOWFACE NO CINEMA

Mickey Rooney - Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany's)

Há um bom tempo atrás, eu fiz um post sobre Blackface no cinema e após isso sempre tive vontade de falar sobre o Yellowface, técnica igualmente ofensiva e nociva. O Yellowface consiste em atores brancos fazerem uso de maquiagem para se caracterizarem como asiáticos. Além do estereótipo, o Yellowface, tirava também a oportunidade de trabalho de diversos atores e atrizes de descendência asiática. Uma das atrizes mais prejudicadas pelo Yellowface foi Anna May Wong. Os asiáticos eram mostrados muitas vezes como vilões ou pessoas retraídas. As mulheres eram mostradas como vingativas ou prostitutas.

Sylvia Sidney e Cary Grant - Madame Butterfly (1932)

O Yellowface foi popularizado nos Estados Unidos há muitos anos, até mesmo antes do nascimento do cinema. Há documentada uma performance teatral realizada em 1767. Naquela época, os atores que faziam uso dessa prática, jamais tinham visto um asiático, assim como diversas pessoas da plateia. No Blackface, o uso da tinta preta é o elemento principal. No Yellowface, os atores pintavam  seus rostos de amarelo. 

Katharine Hepburn - "A Estirpe do Dragão" (The Dragon Seed)

Um dos primeiro registros de Yellowface no cinema mudo é datado em 1915, com Mary Pickford protagonizando uma versão de "Madame Butterfly". Uma curiosidade bizarra sobre esse filme é a briga entre Mary e o diretor do longa,  Sidney Olcott, que a considerava "americana demais" para interpretar uma mulher japonesa.

Mary Pickford - Madame Butterfly (1915)

Em 1918, foi a vez de Norma Talmadge, uma atriz bastante popular por estrelar filmes dramáticos, interpretar uma chinesa em "The Forbidden City". Além da atriz, o restante do elenco também faz uso da técnica.

Norma Talmadge - The Forbidden City

Em 1919, foi a vez de Richard Barthelmess interpretar um chinês em "Lírio Partido" (Broken Blossoms), filme dirigido por D.W. Griffith, que já havia causado polêmica anos antes com a produção de "O Nascimento de Uma Nação" (The Birth of a Nation). Mesmo com o Yellowface, "Lírio Partido" é considerado um dos filmes mais belos já produzidos. Ganhou um remake em 1936, no Reino Unido, novamente fazendo uso da técnica. Emlyn Williams, nascido no Reino Unido, viveu nessa versão o chinês Chen.

Richard Barthelmess - Lírio Partido (Broken Blossoms)

As versões de  1919 e 1927 de "Sr. Wu" (Mr. Wu), contam com diversos atores de outras nacionalidades, caracterizados como asiáticos. A série de filmes Charlie Chan, produzida entre 1931 a 1949, traziam  os atores Warner Oland, Sidney Toler e Roland Winters caracterizados como o detetive chinês. Vale mencionar que Warner Oland, interpretou Fu Manchu no filme de 1929. Oland reprisaria o papel do vilão chinês nos filmes "O Retorno de Fu Manchu" (The Return of Dr. Fu Manchu) e "A Filha do Dragão" (Daughter of the Dragon), esse último trazendo Sessue Hayakawa, um dos maiores atores asiáticos do cinema mudo e Anna May Wong que teria uma carreira bem sabotada em Hollywood.

Warner Oland como Fu Manchu

Ainda falando sobre Charlie Chan, a primeira aparição do personagem ocorreu em um filme realizado em 1926: "The House Without a Key", um filme seriado produzido com dez capítulos pela Pathé. Chan foi interpretado pelo ator George Kuwa, japonês. Um ano depois, foi a vez de Kamiyama Sojin, interpretar Chan em" The Chinese Parrot". Vale mencionar que nesses dois filmes Charlie Chan teve sua importância reduzida, agindo como um personagem coadjuvante. Em 1929, foi a vez de El Park, ator coreano interpretar o detetive em "Behind That Curtain". Novamente o personagem teve sua importância reduzida, aparecendo apenas no final do filme.

Warner Oland como Charlie Chan

Em 1932, a MGM produziria a versão mais polêmica de "Fu Manchu", trazendo Boris Karloff e Myrna Loy em Yellowface. O filme foi considerado racista e ofensivo pelo governo chinês, passando anos sem ser exibido, retornando à luz apenas nos últimos anos. Myrna Loy foi uma das atrizes que mais fez Yellowface durante as décadas de 20 e 30, "13 Mulheres" (Thirteen Women) de 1932, é um de seus filmes mais famosos usando a técnica.

Myrna Loy - 13 Mulheres (Thirteen Women)

Em 1933, foi a vez de Nils Asther, ator sueco interpretar um chinês em "O Último Chá do General Yen" (The Bitter Tea of General Yen). Nesse filme, Toshia Mori, interpreta Mah-Li, amante do General, em um papel que estereotipava as mulheres asiáticas. Esse papel havia sido oferecido à Anna May Wong, que o recusou por estar cansada de interpretar prostitutas. Ela havia interpretado uma em "O Expresso de Xangai" (Shanghai Express), no ano anterior.

Luise Rainer e Paul Muni - Terra dos Deuses (The Good Earth)

Em 1937, todos os personagens principais de "Terra dos Deuses" (The Good Earth) foram interpretados por atores americanos, enquanto os papéis menores eram feitos por atores asiáticos. Luise Rainer ficou com o papel que poderia ter sido de Anna May Wong e ganhou um Oscar por seu desempenho. 

Nils Asther - O Último Chá do General Yen (The Bitter Tea of General Yen)

Hollywood continuou produzindo filmes com Yellowface durante o final da década de 30 e por toda a década de 40. Na década de 50, vale mencionar Jennifer Jones interpretando uma chinesa em "Suplício de uma Saudade" (Love Is a Many-Splendored Thing) e John Wayne interpretando o mongol Genghis Khan em "Sangue de Bárbaros" (The Conqueror). Em 1961, foi a vez de Mickey Rooney interpretar de forma caricata, um japonês em "Bonequinha de Luxo'' (Breakfast at Tiffany's). Sua atuação foi bastante criticada posteriormente, quando as pessoas passaram a enxergar a problemática da técnica.

Gale Sondergaard e Bette Davis - A Carta (The Letter) (1940)

A maioria desses casos de Yellowface ocorriam, por causa de uma lei americana que proibia romances inter-raciais e isso se aplicava também aos filmes, graças ao sistema de censura imposto em Hollywood, a partir de 1934. Romances inter-raciais poderiam ocorrer entre os personagens, desde que os atores possuíssem a mesma nacionalidade. Com a ascensão do Movimento dos Direitos Civis e a queda das leis anti-miscigenação em 1967, o casos de Blackface e Yellowface, passaram a ser pontuais no cinema, mas mesmo assim continuam presentes até os dias atuais. Filmes com temáticas Blackface e Yellowface devem ser vistos em tom de debate e não de problemática. Assistir a esses filmes e compreender a nocividade dessas técnicas e o contexto da época, ajuda a fomentar discussões que podem questionar o motivo dessas técnicas ainda estarem em uso até os dias de hoje.

Edward G. Robinson e Loretta Young - Vingança de Buda (The Hatchet Man)

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